No centro do município de Nova Esperança, a cerca de 380 quilômetros de Fortaleza, uma praça ampla demais para a população que a circunda abriga um relógio de sol desenhado nos anos 1950, quando engenheiros do extinto Departamento Nacional de Obras Contra as Secas projetaram uma cidade capaz de abrigar 50 mil habitantes. Hoje, o censo registra pouco mais de 8.200 moradores. As avenidas desenhadas em grade ortogonal cortam terrenos vazios onde deveriam erguer-se escolas, hospitais e indústrias. Nova Esperança não é exceção: é um padrão.

Esta reportagem mapeou 23 aglomerados urbanos criados ou ampliados entre 1945 e 1970 no semiárido nordestino — cidades-filhas de projetos de integração nacional que prometiam transformar o «sertão miserável» em fronteira de prosperidade. Em 19 delas, a população atual representa menos de 30% do previsto nos planos diretores originais. Em cinco, o índice é inferior a 15%.

A origem do projeto

A lógica era clara: fixar populações nômades, criar polos de irrigação e atrair indústrias para regiões até então consideradas vazios demográficos. O Plano Salte (Saneamento de Trecho das Estradas) e, posteriormente, o Projeto São Francisco, canalizaram recursos federais para infraestrutura urbana em cidades que muitas vezes não existiam no mapa.

«O sertão era visto como problema a ser resolvido por engenharia», explica o historiador urbano Paulo César Lima, da Universidade Federal do Ceará. «A cidade era a ferramenta. Desenhava-se no papel uma comunidade ideal — com praças, repartições públicas, áreas industriais — e esperava-se que as pessoas viessem. Muitas vezes, não vieram.»

Vida nas ruas largas

Em Nova Esperança, a equipe da Trama Editorial passou três semanas acompanhando a rotina de moradores, comerciantes e agricultores familiares. A praça central, projetada para receber manifestações cívicas e feiras regionais, hoje abriga um ponto de ônibus e duas bancas de frutas. O cinema previsto no plano diretor nunca foi construído; o terreno serviu de estacionamento para caminhonetes durante a colheita da melancia.

Seu Manoel, 67 anos, comerciante há quatro décadas, lembra quando a cidade «ainda tinha futuro». «Vieram os engenheiros, as máquinas, as promessas. Meu pai acreditou e abriu a loja. Eu fiquei. Meus filhos estudaram em Fortaleza e não voltaram.» A taxa de êxodo de jovens entre 18 e 30 anos em Nova Esperança atinge 62%, segundo levantamento da prefeitura com base em matrículas escolares.

Cidades projetadas de cima para baixo raramente perguntam a quem vive no chão se deseja morar ali.

Infraestrutura e abandono

O custo de manter infraestrutura dimensionada para uma população cinco vezes maior é brutal para municípios pequenos. Em Nova Esperança, a rede de esgoto atende apenas o centro urbano; bairros periféricos dependem de fossas. A iluminação pública cobre as avenidas principais, mas extensões projetadas para expansão permanecem às escuras. A prefeitura gasta 38% do orçamento municipal apenas com manutenção de vias e prédios públicos subutilizados.

«É como morar numa casa com dez quartos e pagar IPTU de mansão», resume a professora Ana Lúcia, que coordena um projeto de agricultura urbana em terrenos baldios. «A cidade foi feita grande demais para quem ficou.»

Alternativas emergentes

Nem tudo é abandono. Em algumas dessas cidades dorminhocas, moradores desenvolveram soluções próprias. Cooperativas de irrigação reocuparam áreas industriais falidas para cultivo de hortaliças. Artesãos transformaram galpões públicos vazios em ateliês coletivos. Em três municípios visitados, associações de bairro negociaram com prefeituras a conversão de terrenos ociosos em hortas comunitárias e praças menores, mais adequadas à escala real da vida local.

O urbanista Júlia Ferreira, consultora do Ministério das Cidades, defende «políticas de retrofit urbano» para o semiárido: «Em vez de expandir, é preciso adaptar. Reduzir a escala, densificar o centro, requalificar o que existe. Cidades não são estáticas — podem encolher com dignidade.»

O que aprendemos

As cidades dorminhocas do sertão são monumentos silenciosos a um modelo de desenvolvimento que confundiu infraestrutura com transformação social. Projetar urbanamente sem escutar quem vive no território produziu lugares fisicamente impressionantes e socialmente vazios. A lição, setenta anos depois, ainda não foi totalmente assimilada: novos empreendimentos de irrigação e energia no semiárido repetem, em parte, a mesma lógica de promessas grandiosas e populações ausentes.

Para Seu Manoel, a reflexão é mais simples: «A cidade que sonharam não é a que a gente tem. Mas é a que a gente tem que cuidar.»